sexta-feira, 2 de abril de 2010

ANA E O FEIJÃO


Aquele dia era como outro qualquer. Ana acordou. Mal escovou os dentes e ainda descabelada, foi para a cozinha preparar o café. Algo chamou sua atenção. Algo tão ínfimo e tão irrelevante: um caroço de feijão caído junto a um dos pés da mesa da cozinha. Ana parou o que estava fazendo e ficou certo tempo olhando para aquele feijão. Não sabe direito em que pensava, mas olhava.

O marido tomou rapidamente o café, deu um beijo seco em Ana e saiu atrasado como sempre. As crianças barulhentas também saíram. Foram para a escola. Ana já nem se importa mais com detalhes como uniforme, lanche e carinhos. As crianças se despediram, mas Ana nem ouviu.

A visão daquele feijão caído no chão não saía da mente de Ana. Ela não estava preocupada com isso, nem queria saber como acontecera. Havia apenas curiosidade. Talvez Ana tivesse escolhido feijão para cozinhar e justamente aquele carocinho caiu no chão e lá ficara. Claro! Só pode ter sido isso! Mas, há quanto tempo? Ana detivera-se nesses pensamentos. Há quanto tempo aquele caroço estava ali quietinho, tão discreto, observando-a? Por que todos foram para a panela menos ele? O que ele queria? Queria denunciar Ana? Queria denunciar há quanto tempo aquele chão não era varrido?Mas Ana já nem penteia o cabelo! Prende-o com um elástico e pronto. Quem vai se importar se Ana tem varrido o chão ou não? O marido não repara. Nem no chão, nem no cabelo.

Após uns dias, as crianças então notaram um verdinho diferente sob a mesa. Um pé de feijão! – gritou uma delas. Mamãe, nasceu um pé de feijão bem embaixo da mesa da cozinha. Olha só! Ana olhou. Só fez virar o rosto e olhar. Um olhar seco. Nenhuma expressão, mas Ana ficou ofendida. Então aquele feijão dizia a ela que mesmo ali, abandonado no chão, a vida nele se fez brotar. Ana morria e ninguém percebia.

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