
A manhã ainda estava acinzentada, o sol teimava em não aparecer. O sereno exigia que as crianças chegassem à escola com capuzes e gorrinhos coloridos. Choveu na noite anterior, por isso as pegadas de lama pelo pátio marcado pelos pezinhos ávidos de conhecimentos. O sinal foi tocado. Todos em fila, conduzidos por suas professoras, se dirigem às salas de aula.
Sou professora da turma 102, mais conhecida como Tia Nana. Recebi os pequenos com o entusiasmo de sempre. Durante o bate-papo inicial de todas as aulas, soube que as crianças estavam chateadas porque o passeio programado certamente seria cancelado devido ao mau tempo. Percebendo o desapontamento das crianças, tentei animá-las dizendo que não ficassem tristes não, porque outra coisa muito legal poderia acontecer.
Bruno, sempre mal humorado, perguntou:
- Ah, tia, o que pode ser tão legal quanto ir ao Sítio Alegria para andar a cavalo e pescar?
- Teatro – respondi.
- O quê???? – perguntaram todos ao mesmo tempo – Teatro???
O burburinho foi geral. Teatro? O que é isso? Já ouvi falar – diziam uns...
- Pessoal! Seguinte: vamos todos sentar no chão fazendo um círculo? Vamos bater papo sobre teatro? – pedi.
Após algum tumulto, finalmente sentaram-se todos. A curiosidade estava estampada no rostinho de cada um. Havia dezenove crianças naquela turma. Normalmente seriam vinte e duas, mas o Dudu fora transferido, porque sua família foi para outra cidade; Natália e Pedro faltaram.
- Então, tia, o que é esse negócio de teatro que você falou aí? – perguntou Aninha.
Gabriel, afoito, queria falar e levantava o bracinho:
- Eu sei, tia, eu sei! Tia, eu sei! – insistia. Mas todos falavam ao mesmo tempo. Havia muita ansiedade.
Depois de alguns minutos, finalmente consegui controlar os pequenos e disse:
- Gente, sexta-feira, aqui na escola haverá uma peça teatral. Um grupo de alunos da oitava série, lá da outra escola, virá até aqui contar uma história para vocês.
- Uma história? Ah, é isso? Poxa, tia, você falou que seria uma coisa legal...
- E é, Bruno. Espere eu explicar.
- Explica, tia! Explica! – alguns pediam ao mesmo tempo.
- Sabe, é como se fosse um filme, uma novela, só que ao vivo! Vai ter palquinho e tudo.
Depois de explicar o que é palco e delinear rapidamente o que é teatro, revelei às crianças que elas iriam conhecer “Pluft, o fanstasminha”.
- Fantasma???!!! Ai, tenho medo! – disse a assustada Alice.
- Que garota boba! – criticaram alguns meninos - Fantasmas não existem.
Expliquei que não era para ter medo porque é teatro, que é uma espécie de jogo e que era para alegrar, não para assustar.
- Eu sei, tia – finalmente Gabriel ia poder falar. É história que nem essas de Manuel Carlos. Minha mãe sempre fala dele.
- Isso mesmo, Gabriel, só que a historinha que vocês vão ver foi escrita por outra pessoa.
- Teatro se escreve, tia? – perguntaram alguns.
- Sim, claro! É uma história escrita por alguém para depois as pessoas encenarem pra gente. Parecido com novela, entendem?
- Hã-hã...
- E quem escreveu essa história que a gente vai ver, tia? – indagou Heitor, um moreninho lindo de cabelos cacheados.
- A autora de “Pluft, o fantasminha” é a Maria Clara Machado.
- Uma menina???? – perguntaram surpresos.
- Bem, ela foi menina que nem vocês. Cresceu e um dia, aos oitenta anos, morreu.
- AAAhhhh... – lamentaram. As crianças já compreendiam essas coisas, desde que Natália um dia chegou e contou que seu avô Chico havia falecido e por isso ela estava muito triste.
- Mas já faz tempo, sabem? Felizmente, ela deixou algumas historinhas muito legais para vocês, crianças. Ela escreveu “O rapto das Cebolinhas”, “A menina e o Vento”, “Maroquinhas Fru-Fru” e muitas outras!
- Como é mesmo o nome dela, tia? – perguntou o curioso Levi, um menino introvertido, mas muito inteligente.
- Maria Clara Machado – respondi, carinhosamente.
- Fale sobre ela pra gente, tia – pediram.
- Maria Clara Machado, como eu disse, um dia foi criança que nem vocês, mas desde pequena gostava de brincar com teatrinho de bonecos, sabem? Iguaizinhos aqueles que de vez em quando tem aqui na escola.
- Eu brinco de teatrinho com os fantoches que minha avó fez pra mim, tia. Agora eu sei o que é teatrinho – disse Geovana toda orgulhosa.
Novamente um burburinho tomou conta da roda de bate-papo. Todos queriam comentar uns com os outros que já entendiam o que é teatro e que se lembravam nas historinhas encenadas no ano passado quando eram da Classe de Alfabetização.
Recomposto o silêncio, continuei a apresentar Maria Clara Machado às crianças. De repente:
- Gente, me lembrei de uma coisa! Em uma de nossas revistas aqui da sala há uma foto e uma reportagem sobre a Maria Clara! Leandro, pegue ali naquela prateleira uma revista chamada Gente Legal.
- Esta aqui, tia?
- Essa mesmo! Traga-a até aqui para a turma toda ver quem é a Maria Clara Machado.
Então, algumas mãozinhas afoitas folhearam as páginas da Gente Legal quase rasgando-as. Alertei:
- Cuidado, gente! Uma só pessoa pode folhear, os outros aguardam. Se rasgar, vai estragar.
- É uma revista bem antiga né, tia? – observaram.
Leandro, então, que não largava a revista por nada deste mundo, finalmente achou a página dupla em que se podia ler o nome daquela escritora de quem falávamos.
Havia uma foto que ocupava metade da página à esquerda e um texto com letras pequenininhas.
Apontei:
- Estão vendo? Esta aqui é que é a escritora de que estou falando para vocês. Foi ela quem escreveu a peça teatral que vamos ver na sexta-feira, “Pluft, o fantasminha”.
- Ela é muito importante né, tia? – perguntou Levi.
- Sim, muito importante, porque ela escrevia umas historinhas especiais, feitas para crianças, mas que os adultos também gostam muito. Ela já teve uma escola de teatro onde muitos artistas da Globo estudaram para um dia tornarem-se atores profissionais.
- O Rodrigo Santoro também, tia? – quis saber Juliana.
- Hahahaha – ri. Não, não, Juju. Rodrigo Santoro não. Essa escola da Maria Clara Machado, chamada “Tablado”, era uma escola onde os alunos aprendiam tudo de teatro para tornarem-se atores, e que encenavam as histórias escritas por ela. Mas isso foi há até alguns anos atrás...
A rodinha de bate-papo estava tão animada que quase não ouviram o sinal do recreio soar. Tive de prometer que quando as crianças retornassem do intervalo, voltaria a falar de Maria Clara Machado e explicaria o que era afinal aquela tal escola de nome tão difícil de falar – Tablado.
Sou professora da turma 102, mais conhecida como Tia Nana. Recebi os pequenos com o entusiasmo de sempre. Durante o bate-papo inicial de todas as aulas, soube que as crianças estavam chateadas porque o passeio programado certamente seria cancelado devido ao mau tempo. Percebendo o desapontamento das crianças, tentei animá-las dizendo que não ficassem tristes não, porque outra coisa muito legal poderia acontecer.
Bruno, sempre mal humorado, perguntou:
- Ah, tia, o que pode ser tão legal quanto ir ao Sítio Alegria para andar a cavalo e pescar?
- Teatro – respondi.
- O quê???? – perguntaram todos ao mesmo tempo – Teatro???
O burburinho foi geral. Teatro? O que é isso? Já ouvi falar – diziam uns...
- Pessoal! Seguinte: vamos todos sentar no chão fazendo um círculo? Vamos bater papo sobre teatro? – pedi.
Após algum tumulto, finalmente sentaram-se todos. A curiosidade estava estampada no rostinho de cada um. Havia dezenove crianças naquela turma. Normalmente seriam vinte e duas, mas o Dudu fora transferido, porque sua família foi para outra cidade; Natália e Pedro faltaram.
- Então, tia, o que é esse negócio de teatro que você falou aí? – perguntou Aninha.
Gabriel, afoito, queria falar e levantava o bracinho:
- Eu sei, tia, eu sei! Tia, eu sei! – insistia. Mas todos falavam ao mesmo tempo. Havia muita ansiedade.
Depois de alguns minutos, finalmente consegui controlar os pequenos e disse:
- Gente, sexta-feira, aqui na escola haverá uma peça teatral. Um grupo de alunos da oitava série, lá da outra escola, virá até aqui contar uma história para vocês.
- Uma história? Ah, é isso? Poxa, tia, você falou que seria uma coisa legal...
- E é, Bruno. Espere eu explicar.
- Explica, tia! Explica! – alguns pediam ao mesmo tempo.
- Sabe, é como se fosse um filme, uma novela, só que ao vivo! Vai ter palquinho e tudo.
Depois de explicar o que é palco e delinear rapidamente o que é teatro, revelei às crianças que elas iriam conhecer “Pluft, o fanstasminha”.
- Fantasma???!!! Ai, tenho medo! – disse a assustada Alice.
- Que garota boba! – criticaram alguns meninos - Fantasmas não existem.
Expliquei que não era para ter medo porque é teatro, que é uma espécie de jogo e que era para alegrar, não para assustar.
- Eu sei, tia – finalmente Gabriel ia poder falar. É história que nem essas de Manuel Carlos. Minha mãe sempre fala dele.
- Isso mesmo, Gabriel, só que a historinha que vocês vão ver foi escrita por outra pessoa.
- Teatro se escreve, tia? – perguntaram alguns.
- Sim, claro! É uma história escrita por alguém para depois as pessoas encenarem pra gente. Parecido com novela, entendem?
- Hã-hã...
- E quem escreveu essa história que a gente vai ver, tia? – indagou Heitor, um moreninho lindo de cabelos cacheados.
- A autora de “Pluft, o fantasminha” é a Maria Clara Machado.
- Uma menina???? – perguntaram surpresos.
- Bem, ela foi menina que nem vocês. Cresceu e um dia, aos oitenta anos, morreu.
- AAAhhhh... – lamentaram. As crianças já compreendiam essas coisas, desde que Natália um dia chegou e contou que seu avô Chico havia falecido e por isso ela estava muito triste.
- Mas já faz tempo, sabem? Felizmente, ela deixou algumas historinhas muito legais para vocês, crianças. Ela escreveu “O rapto das Cebolinhas”, “A menina e o Vento”, “Maroquinhas Fru-Fru” e muitas outras!
- Como é mesmo o nome dela, tia? – perguntou o curioso Levi, um menino introvertido, mas muito inteligente.
- Maria Clara Machado – respondi, carinhosamente.
- Fale sobre ela pra gente, tia – pediram.
- Maria Clara Machado, como eu disse, um dia foi criança que nem vocês, mas desde pequena gostava de brincar com teatrinho de bonecos, sabem? Iguaizinhos aqueles que de vez em quando tem aqui na escola.
- Eu brinco de teatrinho com os fantoches que minha avó fez pra mim, tia. Agora eu sei o que é teatrinho – disse Geovana toda orgulhosa.
Novamente um burburinho tomou conta da roda de bate-papo. Todos queriam comentar uns com os outros que já entendiam o que é teatro e que se lembravam nas historinhas encenadas no ano passado quando eram da Classe de Alfabetização.
Recomposto o silêncio, continuei a apresentar Maria Clara Machado às crianças. De repente:
- Gente, me lembrei de uma coisa! Em uma de nossas revistas aqui da sala há uma foto e uma reportagem sobre a Maria Clara! Leandro, pegue ali naquela prateleira uma revista chamada Gente Legal.
- Esta aqui, tia?
- Essa mesmo! Traga-a até aqui para a turma toda ver quem é a Maria Clara Machado.
Então, algumas mãozinhas afoitas folhearam as páginas da Gente Legal quase rasgando-as. Alertei:
- Cuidado, gente! Uma só pessoa pode folhear, os outros aguardam. Se rasgar, vai estragar.
- É uma revista bem antiga né, tia? – observaram.
Leandro, então, que não largava a revista por nada deste mundo, finalmente achou a página dupla em que se podia ler o nome daquela escritora de quem falávamos.
Havia uma foto que ocupava metade da página à esquerda e um texto com letras pequenininhas.
Apontei:
- Estão vendo? Esta aqui é que é a escritora de que estou falando para vocês. Foi ela quem escreveu a peça teatral que vamos ver na sexta-feira, “Pluft, o fantasminha”.
- Ela é muito importante né, tia? – perguntou Levi.
- Sim, muito importante, porque ela escrevia umas historinhas especiais, feitas para crianças, mas que os adultos também gostam muito. Ela já teve uma escola de teatro onde muitos artistas da Globo estudaram para um dia tornarem-se atores profissionais.
- O Rodrigo Santoro também, tia? – quis saber Juliana.
- Hahahaha – ri. Não, não, Juju. Rodrigo Santoro não. Essa escola da Maria Clara Machado, chamada “Tablado”, era uma escola onde os alunos aprendiam tudo de teatro para tornarem-se atores, e que encenavam as histórias escritas por ela. Mas isso foi há até alguns anos atrás...
A rodinha de bate-papo estava tão animada que quase não ouviram o sinal do recreio soar. Tive de prometer que quando as crianças retornassem do intervalo, voltaria a falar de Maria Clara Machado e explicaria o que era afinal aquela tal escola de nome tão difícil de falar – Tablado.

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