segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Evasão escolar em áreas de risco

“Uma verdadeira reforma do pensamento está a caminho,

porém de modo muito desigual...”

(Edgar Morin)

Um dos maiores problemas da rede estadual de ensino no Rio de Janeiro é a evasão escolar. A cada dia, as salas de aulas ficam mais vazias. Estamos perdendo nossos alunos para outras coisas que eles acham mais urgentes ou mais atraentes que a escola.

Conforme reportagem publicada em O Dia On Line, no dia 1º de maio deste ano, “a queda no número de matrículas no Rio de 2005 a 2009 é de 15%, quase o dobro da redução média nacional, que é de 8,7%, segundo o Censo Escolar.” A matéria do jornal atribui a evasão à violência vivida por 88 escolas da rede que se encontram em locais de área de conflito social. É interessante observar que desde 2005 os gestores escolares nas escolas estaduais continuam os mesmos, com raras exonerações.

O Ministério Público e o governo estadual determinaram, há alguns anos, que cada escola deve destacar três servidores para aturarem como “visitadores” e descobrirem o porquê de os alunos se ausentarem das escolas. Em algumas comunidades, esses visitadores não são bem recebidos. A violência local os assusta e eles desistem da missão. Vislumbra-se aqui o ecossistema onde a escola está inserida, mas não está se enxergando, ou seja, não se percebe parte daquilo. Ocorre que a escola precisa se dar conta de que enviar visitadores só não basta, é preciso reformar o pensamento, é preciso enxergar-se como parte daquele ecossistema, daquela comunidade e não adequar-se às situações, e sim tentar transformá-las. Tais transformações devem ocorrer de dentro para fora, começando, como disse antes, pelo pensamento.

Para o MEC, as causas mais comuns de abandono são: falta de professores, defasagem idade-série, necessidade de trabalhar e envolvimento com o crime. Ainda que o governo estadual enumere apenas 88 escolas em áreas de risco, é preciso encarar esse problema como sendo de todos: “Seria possível [...] chegar a uma tomada de consciência da coletividade do destino próprio de nossa era planetária, onde todos os humanos são confrontados com os mesmos problemas vitais e mortais.” (MORIN, Edgar. A cabeça bem feita.)

A fim de mascarar a realidade e driblar o Ministério Público, muitas escolas mantêm em seus quadros de matrículas um número considerável de alunos, pois isso implica na verba recebida para a manutenção da escola e da merenda. A verdade é que estamos dando aulas para apenas 8 alunos, às vezes 5, em turmas cujas listagens demonstram até 48 alunos! Verdadeiramente a escola não está se preocupando em resgatar seus alunos, em trazê-los de volta, em reformar suas estruturas didático-pedagógicas a ponto de atraí-los de volta. O mundo do crime é mais atraente, é mais vantajoso. O retorno financeiro é imediato. A escola oferece longos anos de aprendizagem e não prepara para a competição do mundo do trabalho, pois nem os professores estão motivados para isso e nem quem tem o interesse em mascarar os números quer ver a “tranqüilidade” alterada.

Segundo Morin, “a educação deve contribuir para a autoformação da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão.” Em escolas situadas em áreas de risco, onde a evasão não é oficialmente comunicada, onde os alunos são “fantasmas”, vamos falar de cidadania para quem? De onde está vindo o exemplo?

A reportagem de O Dia On Line que dá base para este artigo denuncia que “O estado alega não ter dados atualizados sobre evasão escolar” e garantidamente nunca terá, pois as escolas não fornecem os verdadeiros dados. Só quem está em sala de aula tentando fazer alguma coisa é que conhece os tais “dados”.

Como reverter essa situação? A violência é uma chaga social e a educação não tem sido suficiente para diminuí-la. Ir para as ruas atrás dos alunos que abandonam as escolas para envolverem-se com a criminalidade é mesmo uma medida arriscada. Trata-se apenas de obedecer ao Ministério Público que não tem o poder de fiscalizar o mascaramento estatístico engendrado por gestores descomprometidos com a educação e preocupados apenas com interesses escusos alheios àqueles que um dia poderão lhes colocar uma arma na cabeça e exigir o carro.




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