“Uma verdadeira reforma do pensamento está a caminho,
porém de modo muito desigual...”
(Edgar Morin)
Um dos maiores problemas da rede estadual de ensino no Rio de Janeiro é a evasão escolar. A cada dia, as salas de aulas ficam mais vazias. Estamos perdendo nossos alunos para outras coisas que eles acham mais urgentes ou mais atraentes que a escola.
Conforme reportagem publicada
O Ministério Público e o governo estadual determinaram, há alguns anos, que cada escola deve destacar três servidores para aturarem como “visitadores” e descobrirem o porquê de os alunos se ausentarem das escolas. Em algumas comunidades, esses visitadores não são bem recebidos. A violência local os assusta e eles desistem da missão. Vislumbra-se aqui o ecossistema onde a escola está inserida, mas não está se enxergando, ou seja, não se percebe parte daquilo. Ocorre que a escola precisa se dar conta de que enviar visitadores só não basta, é preciso reformar o pensamento, é preciso enxergar-se como parte daquele ecossistema, daquela comunidade e não adequar-se às situações, e sim tentar transformá-las. Tais transformações devem ocorrer de dentro para fora, começando, como disse antes, pelo pensamento.
Para o MEC, as causas mais comuns de abandono são: falta de professores, defasagem idade-série, necessidade de trabalhar e envolvimento com o crime. Ainda que o governo estadual enumere apenas 88 escolas em áreas de risco, é preciso encarar esse problema como sendo de todos: “Seria possível [...] chegar a uma tomada de consciência da coletividade do destino próprio de nossa era planetária, onde todos os humanos são confrontados com os mesmos problemas vitais e mortais.” (MORIN, Edgar. A cabeça bem feita.)
A fim de mascarar a realidade e driblar o Ministério Público, muitas escolas mantêm em seus quadros de matrículas um número considerável de alunos, pois isso implica na verba recebida para a manutenção da escola e da merenda. A verdade é que estamos dando aulas para apenas 8 alunos, às vezes 5, em turmas cujas listagens demonstram até 48 alunos! Verdadeiramente a escola não está se preocupando em resgatar seus alunos, em trazê-los de volta, em reformar suas estruturas didático-pedagógicas a ponto de atraí-los de volta. O mundo do crime é mais atraente, é mais vantajoso. O retorno financeiro é imediato. A escola oferece longos anos de aprendizagem e não prepara para a competição do mundo do trabalho, pois nem os professores estão motivados para isso e nem quem tem o interesse em mascarar os números quer ver a “tranqüilidade” alterada.
Segundo Morin, “a educação deve contribuir para a autoformação da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão.” Em escolas situadas em áreas de risco, onde a evasão não é oficialmente comunicada, onde os alunos são “fantasmas”, vamos falar de cidadania para quem? De onde está vindo o exemplo?
A reportagem de O Dia On Line que dá base para este artigo denuncia que “O estado alega não ter dados atualizados sobre evasão escolar” e garantidamente nunca terá, pois as escolas não fornecem os verdadeiros dados. Só quem está em sala de aula tentando fazer alguma coisa é que conhece os tais “dados”.

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