sábado, 17 de abril de 2010

UM FILME QUE DESPEDAÇA PRECONCEITOS




“A língua está em tudo e tudo está na língua”
Marcos Bagno



Uma rápida pesquisa pela internet e descobrimos que no mundo existem duas mil e setecentas línguas e sete mil dialetos. O português é a sétima língua mais falada. Esses e outros dados estatísticos ainda não são suficientes para que os brasileiros entendam que, apesar de a língua ser a mesma, os falares são diferentes. E em um país com extensão territorial como o nosso, a variedade linguística se apresenta de acordo com as cores regionais, com as etnias, com o cenário social.
Um olhar crítico mais apurado, porém, percebe que a variedade linguística em nosso país aciona um tipo de preconceito que, por vezes, pode ser o pior de todos: o preconceito linguístico. Pior, porque é disfarçadamente declarado.
Discursos éticos supõem a aceitação da diversidade na unidade, mas a hegemonia da língua padrão propalada por renomados gramáticos e ensinada nas escolas sufoca esses discursos, abafa o “diferente” e a singularidade se perde.
A fim de demonstrar como os diferentes falares regionais de nosso país podem concomitantemente escapar desses paradigmas e confirmá-los, tentarei trançar as linhas de pensamento do Prof. Margos Bagno com a poesia cinematográfica “Abril despedaçado”.
O filme de Walter Salles (2001) retrata de forma surpreendente a rotina de uma humilde família que habita uma região árida do nordeste brasileiro. Essas pessoas sobrevivem graças a um rústico trabalho de fabricação de rapadura. Uma moenda de cana-de-açúcar é o centro desse cenário, desse núcleo do filme. A aridez não é notada apenas no aspecto geográfico. Os escassos diálogos demonstram a mesma rudeza. Para esse grupo familiar tudo é normal até o momento em que o filho mais jovem, Pacu, ganha um livro e esse livro é a chave que abre portas e liberta.
Retrocedendo ao assunto inicial - a língua portuguesa e as questões acerca do preconceito que ela suscita - não é difícil reconhecer que há uma concepção de língua culta que não inclui a língua falada pelo povo. Dessa forma, língua é poder. Para o professor Marcos Bagno (1999), entretanto, o mito “as pessoas sem instrução falam tudo errado” deve ser desconstruído, porque a questão social nesse caso é preponderante. Voltemos ao contexto de “Abril despedaçado”: o fato de os habitantes daquele lugar não “dominarem” a forma culta da língua não os impede de manter comunicação, de trocar mensagens. A forma como o filho mais novo é tratado pelos pais (“minino”) não foi empecilho para os chamamentos. A língua exerce poder, sem dúvida, mas a imposição do padrão culto nesse contexto é inaceitável, posto que quando a mãe chama o minino, os interlocutores sabem muito bem do que se trata.
A ideologia que envolve a língua portuguesa no Brasil, seguindo a linha marxista, é aquela largamente difundida pelos meios de comunicação e pelos representantes do poder econômico. A classe dominante faz acreditar que realmente sem estudo ninguém consegue um bom emprego, e sem um bom emprego não haverá bons consumistas. Em seu livro, “Preconceito linguístico”, Marcos Bagno enumera um outro mito que permeia essa ideologia intitulado “O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social”. Observemos aquele cenário da família Breves em “Abril despedaçado”. A moenda marca o tempo. Um tempo que não passa. Pacu, o minino, ratifica quando diz “A gente é que nem os boi: roda, roda, roda e não sai do lugar.” E por que eles não saem do lugar? Por que todos os dias parecem sempre os mesmos? Para aquela família não há perspectivas. Os membros daquela casa não são consumidores, não foram à escola, e porque não “têm estudos”, são dominados, são massacrados por aqueles que detêm o poder. O chefe patriarcal da família Breves (classe dominada) até percebe que em uma última remessa de rapadura entregue a um comerciante, recebeu menos que de costume. Mas o Sr. Lourenço (classe dominante) explica-lhe que o preço da rapadura caiu no mercado, pois há mais oferta do que procura. Se o domínio da norma culta fosse facultado ao Sr. Breves (o pai), teria tido ele outra oportunidade na vida a não ser tocar os bois para mover a moenda?
O uso da língua nem sempre proporciona cidadania. O Prof. Marcos Bagno (op.cit) quando tenta desmitificar “o certo é falar assim porque se escreve assim” nos explica que é preciso ensinar a escrever de acordo com a ortografia vigente, mas que não podemos, por outro lado, ignorar os saberes culturalmente construídos em determinadas regiões, classes ou grupos familiares.
É muito difícil para certas pessoas entenderem o porquê de uma palavra ser grafada de um jeito diferente daquele que elas falam. Se mãe de Pacu fosse alfabetizada, para ela seria uma tortura chamar o filho “menino”. A mãe de Pacu não deixa de ser uma cidadã, mesmo analfabeta, mesmo que não possua uma carteira de identidade, porque sua identidade não se resume a um pequeno pedaço de papel e nem a um fonema grafado corretamente. A cidadania da mãe de Pacu reside no fato de ela ter de acordar todos os dias para cortar cana, ajudar a moer a cana, fazer a rapadura. Para ajudar a garantir o sustento da família, a mãe não precisa de nenhum guia ortográfico. Por outro lado, quem não possui o letramento, fica com a cidadania incompleta, pois o poder da língua se exercerá. O analfabetismo constitui-se em grande obstáculo para a ascensão social, como prega a ideologia dominante. Nosso presidente da república não possui diplomas, mas é alfabetizado.
Os professores devem estar atentos ao modo como difundem a democracia e a cidadania, para que elas se façam respeitando a cultura local, a identidade de um povo, de uma região. Não se pode considerar errado o que é diferente. Esse discernimento derruba preceitos antigos, como aquele velho mito, também discutido pelo Prof. Bagno, que só em Portugal se fala português corretamente. Eis que os conceitos de cidadania e de identidade cultural devem estar aquecidos para se derrubar esse tipo de preconceito lingüístico. Esse papel cabe, principalmente, aos professores que, ao ensinar o uso de uma língua, devem prestigiar a cultura local sem deixar de fazer comparações com outras culturas apenas para evidenciar as diferenças destacando que uma não é melhor que a outra.
Walter Salles, quando nos proporcionou o encantamento poético “Abril despedaçado” talvez nem estivesse tão preocupado com todos esses paralelos aqui registrados, mas sua obra serve como ilustração do belo, apesar do enredo triste, e do quanto este nosso Brasil é diferente e igualmente rico.
E da mesma forma que nos sugere o Prof. Marcos Bagno, é urgente desfazer o círculo vicioso que ofusca a prática de ensino no nosso país que perpetua o preconceito lingüístico, privilegiando o uso de uma língua imaginária que nem os nossos grandes escritores conhecem.




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