segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Evasão escolar em áreas de risco

“Uma verdadeira reforma do pensamento está a caminho,

porém de modo muito desigual...”

(Edgar Morin)

Um dos maiores problemas da rede estadual de ensino no Rio de Janeiro é a evasão escolar. A cada dia, as salas de aulas ficam mais vazias. Estamos perdendo nossos alunos para outras coisas que eles acham mais urgentes ou mais atraentes que a escola.

Conforme reportagem publicada em O Dia On Line, no dia 1º de maio deste ano, “a queda no número de matrículas no Rio de 2005 a 2009 é de 15%, quase o dobro da redução média nacional, que é de 8,7%, segundo o Censo Escolar.” A matéria do jornal atribui a evasão à violência vivida por 88 escolas da rede que se encontram em locais de área de conflito social. É interessante observar que desde 2005 os gestores escolares nas escolas estaduais continuam os mesmos, com raras exonerações.

O Ministério Público e o governo estadual determinaram, há alguns anos, que cada escola deve destacar três servidores para aturarem como “visitadores” e descobrirem o porquê de os alunos se ausentarem das escolas. Em algumas comunidades, esses visitadores não são bem recebidos. A violência local os assusta e eles desistem da missão. Vislumbra-se aqui o ecossistema onde a escola está inserida, mas não está se enxergando, ou seja, não se percebe parte daquilo. Ocorre que a escola precisa se dar conta de que enviar visitadores só não basta, é preciso reformar o pensamento, é preciso enxergar-se como parte daquele ecossistema, daquela comunidade e não adequar-se às situações, e sim tentar transformá-las. Tais transformações devem ocorrer de dentro para fora, começando, como disse antes, pelo pensamento.

Para o MEC, as causas mais comuns de abandono são: falta de professores, defasagem idade-série, necessidade de trabalhar e envolvimento com o crime. Ainda que o governo estadual enumere apenas 88 escolas em áreas de risco, é preciso encarar esse problema como sendo de todos: “Seria possível [...] chegar a uma tomada de consciência da coletividade do destino próprio de nossa era planetária, onde todos os humanos são confrontados com os mesmos problemas vitais e mortais.” (MORIN, Edgar. A cabeça bem feita.)

A fim de mascarar a realidade e driblar o Ministério Público, muitas escolas mantêm em seus quadros de matrículas um número considerável de alunos, pois isso implica na verba recebida para a manutenção da escola e da merenda. A verdade é que estamos dando aulas para apenas 8 alunos, às vezes 5, em turmas cujas listagens demonstram até 48 alunos! Verdadeiramente a escola não está se preocupando em resgatar seus alunos, em trazê-los de volta, em reformar suas estruturas didático-pedagógicas a ponto de atraí-los de volta. O mundo do crime é mais atraente, é mais vantajoso. O retorno financeiro é imediato. A escola oferece longos anos de aprendizagem e não prepara para a competição do mundo do trabalho, pois nem os professores estão motivados para isso e nem quem tem o interesse em mascarar os números quer ver a “tranqüilidade” alterada.

Segundo Morin, “a educação deve contribuir para a autoformação da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão.” Em escolas situadas em áreas de risco, onde a evasão não é oficialmente comunicada, onde os alunos são “fantasmas”, vamos falar de cidadania para quem? De onde está vindo o exemplo?

A reportagem de O Dia On Line que dá base para este artigo denuncia que “O estado alega não ter dados atualizados sobre evasão escolar” e garantidamente nunca terá, pois as escolas não fornecem os verdadeiros dados. Só quem está em sala de aula tentando fazer alguma coisa é que conhece os tais “dados”.

Como reverter essa situação? A violência é uma chaga social e a educação não tem sido suficiente para diminuí-la. Ir para as ruas atrás dos alunos que abandonam as escolas para envolverem-se com a criminalidade é mesmo uma medida arriscada. Trata-se apenas de obedecer ao Ministério Público que não tem o poder de fiscalizar o mascaramento estatístico engendrado por gestores descomprometidos com a educação e preocupados apenas com interesses escusos alheios àqueles que um dia poderão lhes colocar uma arma na cabeça e exigir o carro.




sexta-feira, 23 de julho de 2010

CONJUGAÇÃO

Affonso Romano de Sant'Anna

Eu falo
tu ouves
ele cala.

Eu procuro
tu indagas
ele esconde.

Eu planto
tu adubas
ele colhe.

Eu ajunto
tu conservas
ele rouba.

Eu defendo
tu combates
ele entrega.

Eu canto
tu calas
ele vaia.

Eu escrevo
tu me lês
ele apaga.

domingo, 30 de maio de 2010

Apresentando MARIA CLARA MACHADO


A manhã ainda estava acinzentada, o sol teimava em não aparecer. O sereno exigia que as crianças chegassem à escola com capuzes e gorrinhos coloridos. Choveu na noite anterior, por isso as pegadas de lama pelo pátio marcado pelos pezinhos ávidos de conhecimentos. O sinal foi tocado. Todos em fila, conduzidos por suas professoras, se dirigem às salas de aula.
Sou professora da turma 102, mais conhecida como Tia Nana. Recebi os pequenos com o entusiasmo de sempre. Durante o bate-papo inicial de todas as aulas, soube que as crianças estavam chateadas porque o passeio programado certamente seria cancelado devido ao mau tempo. Percebendo o desapontamento das crianças, tentei animá-las dizendo que não ficassem tristes não, porque outra coisa muito legal poderia acontecer.
Bruno, sempre mal humorado, perguntou:
- Ah, tia, o que pode ser tão legal quanto ir ao Sítio Alegria para andar a cavalo e pescar?
- Teatro – respondi.
- O quê???? – perguntaram todos ao mesmo tempo – Teatro???
O burburinho foi geral. Teatro? O que é isso? Já ouvi falar – diziam uns...
- Pessoal! Seguinte: vamos todos sentar no chão fazendo um círculo? Vamos bater papo sobre teatro? – pedi.
Após algum tumulto, finalmente sentaram-se todos. A curiosidade estava estampada no rostinho de cada um. Havia dezenove crianças naquela turma. Normalmente seriam vinte e duas, mas o Dudu fora transferido, porque sua família foi para outra cidade; Natália e Pedro faltaram.
- Então, tia, o que é esse negócio de teatro que você falou aí? – perguntou Aninha.
Gabriel, afoito, queria falar e levantava o bracinho:
- Eu sei, tia, eu sei! Tia, eu sei! – insistia. Mas todos falavam ao mesmo tempo. Havia muita ansiedade.
Depois de alguns minutos, finalmente consegui controlar os pequenos e disse:
- Gente, sexta-feira, aqui na escola haverá uma peça teatral. Um grupo de alunos da oitava série, lá da outra escola, virá até aqui contar uma história para vocês.
- Uma história? Ah, é isso? Poxa, tia, você falou que seria uma coisa legal...
- E é, Bruno. Espere eu explicar.
- Explica, tia! Explica! – alguns pediam ao mesmo tempo.
- Sabe, é como se fosse um filme, uma novela, só que ao vivo! Vai ter palquinho e tudo.
Depois de explicar o que é palco e delinear rapidamente o que é teatro, revelei às crianças que elas iriam conhecer “Pluft, o fanstasminha”.
- Fantasma???!!! Ai, tenho medo! – disse a assustada Alice.
- Que garota boba! – criticaram alguns meninos - Fantasmas não existem.
Expliquei que não era para ter medo porque é teatro, que é uma espécie de jogo e que era para alegrar, não para assustar.
- Eu sei, tia – finalmente Gabriel ia poder falar. É história que nem essas de Manuel Carlos. Minha mãe sempre fala dele.
- Isso mesmo, Gabriel, só que a historinha que vocês vão ver foi escrita por outra pessoa.
- Teatro se escreve, tia? – perguntaram alguns.
- Sim, claro! É uma história escrita por alguém para depois as pessoas encenarem pra gente. Parecido com novela, entendem?
- Hã-hã...
- E quem escreveu essa história que a gente vai ver, tia? – indagou Heitor, um moreninho lindo de cabelos cacheados.
- A autora de “Pluft, o fantasminha” é a Maria Clara Machado.
- Uma menina???? – perguntaram surpresos.
- Bem, ela foi menina que nem vocês. Cresceu e um dia, aos oitenta anos, morreu.
- AAAhhhh... – lamentaram. As crianças já compreendiam essas coisas, desde que Natália um dia chegou e contou que seu avô Chico havia falecido e por isso ela estava muito triste.
- Mas já faz tempo, sabem? Felizmente, ela deixou algumas historinhas muito legais para vocês, crianças. Ela escreveu “O rapto das Cebolinhas”, “A menina e o Vento”, “Maroquinhas Fru-Fru” e muitas outras!
- Como é mesmo o nome dela, tia? – perguntou o curioso Levi, um menino introvertido, mas muito inteligente.
- Maria Clara Machado – respondi, carinhosamente.
- Fale sobre ela pra gente, tia – pediram.
- Maria Clara Machado, como eu disse, um dia foi criança que nem vocês, mas desde pequena gostava de brincar com teatrinho de bonecos, sabem? Iguaizinhos aqueles que de vez em quando tem aqui na escola.
- Eu brinco de teatrinho com os fantoches que minha avó fez pra mim, tia. Agora eu sei o que é teatrinho – disse Geovana toda orgulhosa.
Novamente um burburinho tomou conta da roda de bate-papo. Todos queriam comentar uns com os outros que já entendiam o que é teatro e que se lembravam nas historinhas encenadas no ano passado quando eram da Classe de Alfabetização.
Recomposto o silêncio, continuei a apresentar Maria Clara Machado às crianças. De repente:
- Gente, me lembrei de uma coisa! Em uma de nossas revistas aqui da sala há uma foto e uma reportagem sobre a Maria Clara! Leandro, pegue ali naquela prateleira uma revista chamada Gente Legal.
- Esta aqui, tia?
- Essa mesmo! Traga-a até aqui para a turma toda ver quem é a Maria Clara Machado.
Então, algumas mãozinhas afoitas folhearam as páginas da Gente Legal quase rasgando-as. Alertei:
- Cuidado, gente! Uma só pessoa pode folhear, os outros aguardam. Se rasgar, vai estragar.
- É uma revista bem antiga né, tia? – observaram.
Leandro, então, que não largava a revista por nada deste mundo, finalmente achou a página dupla em que se podia ler o nome daquela escritora de quem falávamos.
Havia uma foto que ocupava metade da página à esquerda e um texto com letras pequenininhas.
Apontei:
- Estão vendo? Esta aqui é que é a escritora de que estou falando para vocês. Foi ela quem escreveu a peça teatral que vamos ver na sexta-feira, “Pluft, o fantasminha”.
- Ela é muito importante né, tia? – perguntou Levi.
- Sim, muito importante, porque ela escrevia umas historinhas especiais, feitas para crianças, mas que os adultos também gostam muito. Ela já teve uma escola de teatro onde muitos artistas da Globo estudaram para um dia tornarem-se atores profissionais.
- O Rodrigo Santoro também, tia? – quis saber Juliana.
- Hahahaha – ri. Não, não, Juju. Rodrigo Santoro não. Essa escola da Maria Clara Machado, chamada “Tablado”, era uma escola onde os alunos aprendiam tudo de teatro para tornarem-se atores, e que encenavam as histórias escritas por ela. Mas isso foi há até alguns anos atrás...
A rodinha de bate-papo estava tão animada que quase não ouviram o sinal do recreio soar. Tive de prometer que quando as crianças retornassem do intervalo, voltaria a falar de Maria Clara Machado e explicaria o que era afinal aquela tal escola de nome tão difícil de falar – Tablado.











terça-feira, 27 de abril de 2010

AVALIAÇÃO E JUÍZO DE VALOR






Como educadora e como estudante, gostaria de refletir sobre o delicado processo da avaliação. Tenho pensado sobre até que ponto tenho feito a coisa certa, até que ponto tenho tentado acertar e o quanto meus erros influem sobre os outros. Na verdade, é preciso repensar tudo, pois a cada dia nos vemos em novas situações e para cada uma delas devemos nos reposicionar. A avaliação não é um processo estático, padronizado. Cada caso é um caso.
Convém lembrar o que é uma avaliação: avaliar faz parte do processo de ensino e aprendizagem e serve como condição para mudar a prática e redimensionar o processo de ensino e aprendizagem – vejam: ENSINO E APRENDIZAGEM! - e como dizem por aí, trata-se de uma “via de mão-dupla”, pois não ensinamos sem avaliar, não aprendemos sem avaliar e, em se tratando de “trânsito”, é sempre saudável pegar o primeiro retorno e tentar acertar o caminho caso estejamos no trajeto errado.
Enquanto educadores, estamos nos autoavaliando? Estamos refazendo o caminho? Estamos oportunizando a autonomia e a autodireção aos nossos alunos? Essas são algumas perguntas que devemos nos fazer o tempo todo.
Normalmente nós, professores, reduzimos a avaliação a um mero instrumento de medição para verificar o que estudante aprendeu ou não mediante o conteúdo ensinado – é isso também, mas vai além. Seríamos ingênuos se não reconhecêssemos que usamos essas medidas para exercer o controle sobre o comportamento dos estudantes. Eis um exemplo do poder tal qual Foucault brilhantemente nos alertou. Não sei se ele gostaria desse “brilhantemente”, mas no momento não me ocorre palavra melhor. O poder de dar uma nota é sedutor! Induzimos nossos alunos à subordinação e tentamos controlar o comportamento deles graças ao ameaçador resultado de uma avaliação. Que coisa medonha! Eu ainda não tinha parado para pensar sobre isso.
Além do aspecto formal da nota, do número, a avaliação implica também um olhar sobre os valores e as atitudes de nossos estudantes e aí mora o perigo: a medição torna-se subjetiva e seu caráter, duvidoso. Informalmente, avaliamos muito mais do que deveríamos. Não quero citar o “currículo oculto” senão este texto não vai terminar tão cedo, e eu não tenho muito tempo. Estou sob um determinado impacto e não quero me distanciar dele.
Finalmente cheguei onde queria: o aspecto informal da avaliação. Reconheço que todo processo avaliativo implica na formulação de juízos de valor ou em apreciações, mas até que ponto esse aspecto avaliativo pode comprometer a credibilidade no instrumento avaliativo e no avaliador? Quem avalia subjetivamente está também julgando o subjetivo do outro e isso pode perfeitamente prejudicar a autonomia daquele que está sendo avaliado, sobre quem exercemos o poder.
Os juízos de valor partem de um lado e de outro, ou seja, de professores e alunos - ação e reação ou parte inerente do ser humano? Muita calma nessa hora! Particularmente, acredito que os juízos de valor devem ser guardados e não usados para medir, excluir, valorar, punir, adjetivar, premiar, duvidar ou o extremo: caluniar.
Os juízos de valor interferem para o bem ou para o mal nas relações entre professores e alunos e o que separa o justo do injusto é uma linha muito tênue. Quando os juízos de valor são negativos resulta em prejuízo do estudante, pois o preconceito que se forma sobre ele afeta consideravelmente sua autoestima e extermina oportunidades de aprendizagem.
Ser professor não é fácil. Ser professor, ou melhor, ser educador é lidar com vidas, com almas, com sentimentos. Não posso perder isso de vista. Não posso reduzir um aluno a um mero número ou a uma adjetivação. Meu aluno é um alguém, é uma pessoa – tem história, tem sentimentos. Meu aluno não poder ser visto como uma tábua rasa na qual sou eu quem vai talhar alguma coisa. Ele já veio talhado e ele quer confiar em mim. Sou eu quem vai duvidar da capacidade dele? Antes que eu cometa alguma injustiça – e eu não estou livre disso – preciso me despir da dúvida, do preconceito, e me autoavaliar o tempo todo.
Quando um professor diz que sabe do que seus alunos são capazes ou não, está generalizando, empregando juízo de valor e cometendo injustiça. Na verdade, é o trabalho desse professor que está em questão, pois quando age dessa forma está impondo sobre o outro aquilo o que ele acha que é, e não o que deveria ser e não é esse o papel de um professor. Convém refletirmos sobre isso se quisermos viabilizar uma melhor qualidade de ensino e promover a verdadeira aprendizagem.
Meu texto também está impregnado de juízos de valor, mas não pretendo convencer ninguém. Quis apenas expor meu ponto de vista acerca da avaliação subjetiva que fazemos do outro. Estou aberta para outras opiniões. Minha cabeça não é quadrada.

sábado, 17 de abril de 2010

UM FILME QUE DESPEDAÇA PRECONCEITOS




“A língua está em tudo e tudo está na língua”
Marcos Bagno



Uma rápida pesquisa pela internet e descobrimos que no mundo existem duas mil e setecentas línguas e sete mil dialetos. O português é a sétima língua mais falada. Esses e outros dados estatísticos ainda não são suficientes para que os brasileiros entendam que, apesar de a língua ser a mesma, os falares são diferentes. E em um país com extensão territorial como o nosso, a variedade linguística se apresenta de acordo com as cores regionais, com as etnias, com o cenário social.
Um olhar crítico mais apurado, porém, percebe que a variedade linguística em nosso país aciona um tipo de preconceito que, por vezes, pode ser o pior de todos: o preconceito linguístico. Pior, porque é disfarçadamente declarado.
Discursos éticos supõem a aceitação da diversidade na unidade, mas a hegemonia da língua padrão propalada por renomados gramáticos e ensinada nas escolas sufoca esses discursos, abafa o “diferente” e a singularidade se perde.
A fim de demonstrar como os diferentes falares regionais de nosso país podem concomitantemente escapar desses paradigmas e confirmá-los, tentarei trançar as linhas de pensamento do Prof. Margos Bagno com a poesia cinematográfica “Abril despedaçado”.
O filme de Walter Salles (2001) retrata de forma surpreendente a rotina de uma humilde família que habita uma região árida do nordeste brasileiro. Essas pessoas sobrevivem graças a um rústico trabalho de fabricação de rapadura. Uma moenda de cana-de-açúcar é o centro desse cenário, desse núcleo do filme. A aridez não é notada apenas no aspecto geográfico. Os escassos diálogos demonstram a mesma rudeza. Para esse grupo familiar tudo é normal até o momento em que o filho mais jovem, Pacu, ganha um livro e esse livro é a chave que abre portas e liberta.
Retrocedendo ao assunto inicial - a língua portuguesa e as questões acerca do preconceito que ela suscita - não é difícil reconhecer que há uma concepção de língua culta que não inclui a língua falada pelo povo. Dessa forma, língua é poder. Para o professor Marcos Bagno (1999), entretanto, o mito “as pessoas sem instrução falam tudo errado” deve ser desconstruído, porque a questão social nesse caso é preponderante. Voltemos ao contexto de “Abril despedaçado”: o fato de os habitantes daquele lugar não “dominarem” a forma culta da língua não os impede de manter comunicação, de trocar mensagens. A forma como o filho mais novo é tratado pelos pais (“minino”) não foi empecilho para os chamamentos. A língua exerce poder, sem dúvida, mas a imposição do padrão culto nesse contexto é inaceitável, posto que quando a mãe chama o minino, os interlocutores sabem muito bem do que se trata.
A ideologia que envolve a língua portuguesa no Brasil, seguindo a linha marxista, é aquela largamente difundida pelos meios de comunicação e pelos representantes do poder econômico. A classe dominante faz acreditar que realmente sem estudo ninguém consegue um bom emprego, e sem um bom emprego não haverá bons consumistas. Em seu livro, “Preconceito linguístico”, Marcos Bagno enumera um outro mito que permeia essa ideologia intitulado “O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social”. Observemos aquele cenário da família Breves em “Abril despedaçado”. A moenda marca o tempo. Um tempo que não passa. Pacu, o minino, ratifica quando diz “A gente é que nem os boi: roda, roda, roda e não sai do lugar.” E por que eles não saem do lugar? Por que todos os dias parecem sempre os mesmos? Para aquela família não há perspectivas. Os membros daquela casa não são consumidores, não foram à escola, e porque não “têm estudos”, são dominados, são massacrados por aqueles que detêm o poder. O chefe patriarcal da família Breves (classe dominada) até percebe que em uma última remessa de rapadura entregue a um comerciante, recebeu menos que de costume. Mas o Sr. Lourenço (classe dominante) explica-lhe que o preço da rapadura caiu no mercado, pois há mais oferta do que procura. Se o domínio da norma culta fosse facultado ao Sr. Breves (o pai), teria tido ele outra oportunidade na vida a não ser tocar os bois para mover a moenda?
O uso da língua nem sempre proporciona cidadania. O Prof. Marcos Bagno (op.cit) quando tenta desmitificar “o certo é falar assim porque se escreve assim” nos explica que é preciso ensinar a escrever de acordo com a ortografia vigente, mas que não podemos, por outro lado, ignorar os saberes culturalmente construídos em determinadas regiões, classes ou grupos familiares.
É muito difícil para certas pessoas entenderem o porquê de uma palavra ser grafada de um jeito diferente daquele que elas falam. Se mãe de Pacu fosse alfabetizada, para ela seria uma tortura chamar o filho “menino”. A mãe de Pacu não deixa de ser uma cidadã, mesmo analfabeta, mesmo que não possua uma carteira de identidade, porque sua identidade não se resume a um pequeno pedaço de papel e nem a um fonema grafado corretamente. A cidadania da mãe de Pacu reside no fato de ela ter de acordar todos os dias para cortar cana, ajudar a moer a cana, fazer a rapadura. Para ajudar a garantir o sustento da família, a mãe não precisa de nenhum guia ortográfico. Por outro lado, quem não possui o letramento, fica com a cidadania incompleta, pois o poder da língua se exercerá. O analfabetismo constitui-se em grande obstáculo para a ascensão social, como prega a ideologia dominante. Nosso presidente da república não possui diplomas, mas é alfabetizado.
Os professores devem estar atentos ao modo como difundem a democracia e a cidadania, para que elas se façam respeitando a cultura local, a identidade de um povo, de uma região. Não se pode considerar errado o que é diferente. Esse discernimento derruba preceitos antigos, como aquele velho mito, também discutido pelo Prof. Bagno, que só em Portugal se fala português corretamente. Eis que os conceitos de cidadania e de identidade cultural devem estar aquecidos para se derrubar esse tipo de preconceito lingüístico. Esse papel cabe, principalmente, aos professores que, ao ensinar o uso de uma língua, devem prestigiar a cultura local sem deixar de fazer comparações com outras culturas apenas para evidenciar as diferenças destacando que uma não é melhor que a outra.
Walter Salles, quando nos proporcionou o encantamento poético “Abril despedaçado” talvez nem estivesse tão preocupado com todos esses paralelos aqui registrados, mas sua obra serve como ilustração do belo, apesar do enredo triste, e do quanto este nosso Brasil é diferente e igualmente rico.
E da mesma forma que nos sugere o Prof. Marcos Bagno, é urgente desfazer o círculo vicioso que ofusca a prática de ensino no nosso país que perpetua o preconceito lingüístico, privilegiando o uso de uma língua imaginária que nem os nossos grandes escritores conhecem.




sexta-feira, 16 de abril de 2010

LER MARIA CLARA MACHADO E SAIR VENTAROLANDO POR AÍ




Foi muito bom entrar em contato novamente com um texto teatral. Já havia me esquecido de suas “marcas” e de como tudo acontece rápido. “A menina e o vento” foi a primeira peça teatral infantil que li. Não conhecia nada de Maria Clara Machado, a não ser “Pluft, o fantasminha” quando exibido como novela há muitos anos atrás.
Quando ouço falar em teatro infantil, penso que são crianças encenando para crianças. Nem sempre me ocorreu que adultos encenam para crianças também. Esse é um dos traços de minha ignorância acerca do universo teatral, principalmente o infantil.
O texto de Maria Clara Machado flui tão bem que por vezes parecia sentir-me no teatro; por vezes, parecia que eu fazia teatro. Peguei-me várias vezes lendo em voz alta tentando interpretar alguns daqueles papéis. Acho que isso acontece com todo mundo. Interpretei Maria, Pedro, a mãe, e a minha personagem favorita, a tia Adelaide – sempre me simpatizo com as “vilãs”.
Arrisco-me dizer que Maria e o Vento, nessa história, eram coadjuvantes. A trama se passa em torno do sumiço deles, mas quem assume toda a graça conferida ao texto é o atrapalhado Comissário Plácido e seus ajudantes. Dei algumas risadas por causa deles. Penso que dariam um belo trio de palhaços em espetáculo circense. E isso não é demérito!
“A menina é o vento” é um grito, um alerta sobre o que estamos fazendo com as nossas crianças ao privá-las da liberdade de brincar, de criar, de inventar. Mostra-nos a pequenez de nossas atitudes diante de situações tão simples do dia-a-dia como, por exemplo, privar-nos de ser crianças um pouquinho que seja. A rudeza da vida por vezes obscurece essa visão e impede que subamos na cacunda do vento para fazer umas desordens por aí . Quando foi a última vez que me permiti ventarolar? Já não me lembro...
“A menina e o vento” é uma peça teatral infantil, mas permeada de lições de vida para adultos mal resolvidos, rabugentos e desmemoriados – porque a gente esquece que um dia foi criança, mesmo que não tenha tido “infância”.
Quanto ao jogo teatral em si, “A menina e o vento” , além de nos chamar para ventarolar o mundo através da linguagem verbal e não-verbal (cenário, vento, luz etc), nos remete a uma postura lúdica bem desenhada por Maria Clara Machado. Gostaria de ver esse texto encenado.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

ANA E O FEIJÃO


Aquele dia era como outro qualquer. Ana acordou. Mal escovou os dentes e ainda descabelada, foi para a cozinha preparar o café. Algo chamou sua atenção. Algo tão ínfimo e tão irrelevante: um caroço de feijão caído junto a um dos pés da mesa da cozinha. Ana parou o que estava fazendo e ficou certo tempo olhando para aquele feijão. Não sabe direito em que pensava, mas olhava.

O marido tomou rapidamente o café, deu um beijo seco em Ana e saiu atrasado como sempre. As crianças barulhentas também saíram. Foram para a escola. Ana já nem se importa mais com detalhes como uniforme, lanche e carinhos. As crianças se despediram, mas Ana nem ouviu.

A visão daquele feijão caído no chão não saía da mente de Ana. Ela não estava preocupada com isso, nem queria saber como acontecera. Havia apenas curiosidade. Talvez Ana tivesse escolhido feijão para cozinhar e justamente aquele carocinho caiu no chão e lá ficara. Claro! Só pode ter sido isso! Mas, há quanto tempo? Ana detivera-se nesses pensamentos. Há quanto tempo aquele caroço estava ali quietinho, tão discreto, observando-a? Por que todos foram para a panela menos ele? O que ele queria? Queria denunciar Ana? Queria denunciar há quanto tempo aquele chão não era varrido?Mas Ana já nem penteia o cabelo! Prende-o com um elástico e pronto. Quem vai se importar se Ana tem varrido o chão ou não? O marido não repara. Nem no chão, nem no cabelo.

Após uns dias, as crianças então notaram um verdinho diferente sob a mesa. Um pé de feijão! – gritou uma delas. Mamãe, nasceu um pé de feijão bem embaixo da mesa da cozinha. Olha só! Ana olhou. Só fez virar o rosto e olhar. Um olhar seco. Nenhuma expressão, mas Ana ficou ofendida. Então aquele feijão dizia a ela que mesmo ali, abandonado no chão, a vida nele se fez brotar. Ana morria e ninguém percebia.
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